23 de Agosto de 2017

Está aqui

Património Cultural

FORAL MANUELINO

El Rei D. Manuel, em 27 de Agosto de 1514, concedeu Foral a Terras de Mira.

O seu conteúdo, fruto de um tempo e de uma época, espelha sobretudo a vida social, económica e fiscal do lugar, permitindo ainda uma fugidia informação sobre a administração local. Torna-se assim num quadro vivo e variado, de gente local e gente em circulação, com obrigações, graças e privilégios, em que a pacatez dos locais é quebrada com mercadores a chegar, com as suas bestas carregando produtos de outros partes.

Hoje, mais não é do que peça de arquivo ou museu, mas a sua leitura no início do século XXI suscita uma viagem no tempo e alicerça memórias, de um passado colectivo. O original deste documento que se apresenta como um códice com a primeira página iluminada, encontra-se actualmente no Museu do Território da Gândara, depois de um aprofundado trabalho técnico de conservação e restauro, que garante a salvaguarda deste valioso património documental para as gerações vindouras.

 

LENDA DE S. TOMÉ

Em tempos muito antigos a lagoa de Mira foi uma cidade chamada Miragaia.

Aquando da sua submersão e assistindo nela o Glorioso Apóstolo de S. Tomé, Cristo Nosso Senhor falou-lhe dizendo que saísse da dita cidade e se pusesse à vista dela, onde permaneceria até ao fim do mundo fazendo milagres e obrando prodígios.

Há tradição que esta sagrada imagem aparecera então debaixo de um tronco de amieira e de outras árvores silvestres nuns bosques junto aos ribeiros a alguma distância da Lagoa de Mira.

Como naquele local onde aparecera o Santo não se podia construir a Igreja, visto as águas daqueles ribeiros o impedirem, foi erguida noutro local distante do sítio onde aparecera a sagrada imagem. Indo os fiéis e o sacerdote daquele tempo para dizer missa não encontraram o Santo na Igreja. Surpreendidos com o facto puseram-se à procura do Santo, dizendo: “Ó S. Tomé onde estás tu?” - encontraram-no então num campo de favas junto aos ribeiros onde anteriormente aparecera, respondendo: “Estou no meio das favas a encher o ...”

Como esta fuga se repetia constantemente o povo quando o ia procurar dizia: “Ó S. Tomé onde estais vós?” - e antes do santo lhes responder logo continuavam dizendo: “No meio do faval o encontraremos nós”.

Apercebendo-se o povo que o Santo só naquele sítio onde tinha aparecido queria permanecer, fizeram-lhe uma Igreja tal e qual o sítio permitia.

 

CARETOS DA LAGOA – TRADIÇÃO ANTIGA NO CONCELHO

Os caretos são foliões do sexo masculino que se fantasiam com roupas femininas coloridas e usam uma máscara de cartão, ornamentada de chifres e serpentinas, dependuram ao pescoço chocalhas e guizos. Aparecem em grupo, “atacando” as pessoas, especialmente raparigas solteiras, assustando-as.

É por altura do Entrudo que fazem a sua aparição. Antigamente, a saída dos Caretos realizava-se como uma espécie de ritual pagão, que traduzia a passagem dos rapazes à idade adulta. Por esse motivo só é permitido o uso das ‘campinas’ a homens, uma alusão à virilidade mas que baralha as pessoas já que recorrem também ao uso da saia vermelha, um misto entre o humano e o diabólico, o religioso e o profano.

ARTE XÁVEGA

Sendo uma atividade antiga, tem vindo a sofrer evoluções com o tempo, mas continua a ser uma verdadeira Arte no seu todo – barco, redes, trabalho, pescadores – representando, além de uma forma de vida, um atrativo turístico e um magnífico quadro ou espetáculo vivo para quem procura a Praia de Mira.

É uma forma tradicional de pesca em que, ainda hoje, os pescadores organizados por companhas, enfrentam a rebentação e vão ao mar num peculiar barco de madeira em forma de meia-lua para depois lançarem as enormes mas bem trabalhadas redes, cercando e trazendo para terra os cardumes.

Para puxar as redes para a praia contam com a ajuda de tratores, que vieram substituir as possantes juntas de bois que durante décadas ajudaram os pescadores a puxar barcos e redes. Logo depois dá-se o espetáculo da abertura do saco da rede, a descoberta da pescaria realizada e procede-se a uma minuciosa escolha das diversas qualidades de peixe que saltam e escorregam das mãos conhecedoras dos pescadores para as canastras da lota.

Para a pesca, diferenciam-se duas épocas no ano: de novembro a março, altura em que os homens, por razões do estado alterado do mar, ficam em terra a preparar as redes com a sua própria técnica; e de abril a outubro, quando se juntam cerca de 15 homens, alguns dos quais vão ao mar (normalmente 8), enquanto outros ficam em terra a estender as redes para o próximo lanço, a escolher o peixe do lanço anterior, entre outras tarefas.

CASA GANDARESA

Casa tradicional rural característica da região, com notórias influências características das áreas mediterrânicas, terá sido importada para a Gândara, sofrendo ao longo do tempo, constantes adaptações às condições socioeconómicas aqui vividas no séc. XVIII e XIX.

É uma casa térrea de formato em “L”, com pátio fechado, telhado de duas águas e construída de adobes de areia e cal, secos ao sol. A frente da casa é sistematicamente formada por janela – porta – janela e um largo portão de duas folhas, que permitia a passagem, para dentro e para fora, dos carros de bois e respectivas carradas de produtos agrícolas. Por baixo do beiral, uma esmerada cimalha horizontal ornamentava a fachada da habitação.

Os vãos das portas, das janelas e do portão eram geralmente reforçados e ornamentados com pedra de cantaria, originária de Ançã. De referir ainda a existência, no exterior da fachada, de respiradores abaixo dos soalhos, na parte inferior da casa, bem como, na parte superior do lado da casa da arrumação, a existência dos “óculos” do sótão, para iluminação e arejamento do mesmo.

PALHEIRO

Na Praia de Mira, outrora designada Palheiros de Mira, ainda é possível encontrar algumas das originais construções feitas de madeira. Hoje quase extintas, mas que continuam a marcar presença na memória e ainda em alguns recantos deste povoado de pescadores.

Assentes sobre estacaria, de modo a não constituir obstáculo à livre circulação das águas durante as marés vivas e à passagem da areia tocada pelos ventos soprados do interior e do mar, caracterizavam-se por «total arquitectura de madeira, chegando mesmo a atingir dois a três andares» evidenciando a mestria da sua construção.

As tábuas/pranchas podiam ser sobrepostas de duas formas: quase sempre na horizontal, sendo pintadas com piche e/ou por vezes na vertical, sendo as juntas tapadas por ripas. 

ARTESANATO

O artesanato resulta do trabalho manual de artesãos criado através de interacção contínua ao longo dos tempos, é a marca característica de determinada região ou localidade,  

Entre o artesanato mais antigo e característico desta zona destacamos os Abanicos de Penas, trabalhos em Madeira (Carros de Bois, Pipas), miniaturas de poços de engenho, as cabanas da palha, Esteiras, Latoaria, Cestaria de Vime, mas mais fácil de encontrar nos dias de hoje são as Miniaturas de Barcos, Miniaturas de Redes e as Miniaturas de Palheiros e Casas Gandaresas.