24 de Outubro de 2017

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História

A ocupação humana do atual concelho de Mira remonta há centenas de milhares de anos. Há indícios e vestígios antigos da vida humana que remontam a épocas antiquíssimas, que podem ser integrados no Paleolítico Antigo, tal como instrumentos simples de pedra talhada. Pode mesmo afirmar-se, em função dos sítios arqueológicos detetados e das suas caraterísticas, que durante o Paleolítico existiu uma ocupação intensa da Região.

Da época romana também se encontraram diversos materiais de construção, nomeadamente "tegulae" (telhas) e cerâmica doméstica, vestígios de casais romanos, que constituem os testemunhos mais antigos das primeiras moradas permanentes dos pescadores-agricultores das atuais terras Mira. 

Já no período Muçulmano, toda a região terá sido palco de guerras entre cristãos e árabes, até que, em 1064, se deu finalmente a afirmação do poder dos cristãos com a conquista de Coimbra. Toda a influência árabe foi sempre muito nítida, tendo mesmo a região um dos maiores focos de moçarabismo de toda a península. Durante estas “lutas” foram emergindo, nas linhas de fronteiras e linhas de separação de territórios, diversas novas localidades, com ocupação contínua e definitiva dos territórios conquistados. Entre elas, conta-se Mira. 

É a partir desta altura que melhor se conhece a História das terras de Mira. 

Por altura em que as terras, que hoje são Portugal e se estendem até ao Mondego, pertenciam ao reino de Leão e Castela, o rei Afonso VI doou-as a sua filha mais velha, D. Urraca e a seu marido, Conde D. Raimundo. Foi já sob o poder de Urraca, no ano de 1095, que Mira viria a aparecer documentada, na confirmação da sua posse a Soleima Godinho, que foi distinguido com a doação de vários bens, entre eles a villa de Mira, que ele já possuiria, a título precário, de tempo anterior que se desconhece. 

Em 1132, Soleima Godinho acabaria por legar metade das suas herdades em Montemor e da Igreja de São Tomé de Mira, ao recém fundado Mosteiro de Santa Cruz, da Cidade de Coimbra. Esta instituição levou a cabo um intenso desenvolvimento das terras de Mira, procurando fixar os homens e retirar o rendimento possível da terra, conforme se pode aferir num contrato com os povoadores da Ermida de Santa Maria de Mira, em 1183. Surgiram então os lugares pelos arredores, Ermida, Corujeira, Portomar e nasceram lugares de culto (a ermida de Santa Maria de Mira a par da igreja de São Tomé).

Após a grande recessão do século XIV, que também terá atingido terras de Mira, chegando mesmo a desaparecer alguns lugares até aí conhecidos, foi a realeza, na dinastia de Avis, que lhe trouxe novo e grande impulso de desenvolvimento. D. João I beneficiou seu filho, Pedro, tornando-o duque de Coimbra, senhor de Montemor, da vila de Aveiro e das terras de Mira. Terá sido D. Pedro, o senhor de Mira, quem mais se interessou pelo lugar, e, em 12 de Outubro de 1442 concede carta de privilégios aos moradores de Mira (carta esta que foi confirmada pelo seu sobrinho, rei Afonso V, a 22 de Julho de 1447).

Em 12 de Julho de 1448, D. Afonso V doa oficialmente, ao Infante D. Pedro, seus filhos e netos, as vilas de Mira e Aveiro e simultaneamente desanexa Mira do termo de Coimbra, elevando-a a concelho e concedendo-lhe autonomia administrativa.
Em 1497, a 3 de março, o rei D.Manuel I doa os direitos reais de Mira a Gonçalo Tavares, e em 27 de agosto de 1514 assina o foral concedido a estas terras, como instrumento de governação local, garantindo a representatividade do povoado e seus habitantes, relativamente a obrigações e encargos, limitando o poder dos senhores em favor dos povos.

O senhorio de Mira manteve-se na família dos Tavares até que, no reinado de D. João IV, por doação desse rei a sua esposa D. Luisa de Gusmão, passou a integrar o património da Casa das Rainhas. Foi D. Luisa de Gusmão, que em 2 de abril de 1644, ordenou ao corregedor, da Comarca de Coimbra, a tomada de posse da vila e seu termo, e aí se manteve até 1833 (aquando da extinção do regime senhorial, do reconhecimento da garantia plena da propriedade privada e no controlo exclusivo pela lei e pelos tribunais). 

Todo o século XIX foi rico em reformas administrativas. Mira, tradicionalmente ligada à cidade do Mondego, pertenceu administrativamente ao distrito de Aveiro. A freguesia da Mamarosa esteve integrada no concelho de Mira, havendo um documento de 30 de junho de 1837 que referia que o concelho de Mira tinha duas freguesias, Mira e Mamarosa (esta freguesia pertenceu a Mira até 31 de dezembro de 1853, tal como a freguesia de Covão do Lobo pertenceu ao concelho de Mira de 1853 a 1855).

Em 1839, o concelho estava integrado na Comarca de Aveiro e em 1852 na de Anadia. No ano de 1853, o decreto de 31 de dezembro reintegrou o concelho de Mira no Distrito de Coimbra.

O concelho teve uma efémera extinção, resultado da lei de 26 de junho de 1867 que preconizava uma reforma administrativa, regulamentada por decreto de 10 de dezembro desse mesmo ano, que extinguia vários concelhos, entre os quais Mira e Vagos, tendo Mira ficado integrada no concelho de Cantanhede. Entretanto, o decreto de 14 de janeiro de 1868 anulou a lei e decreto anterior, pelo que o concelho de Mira esteve extinto um mês e quatro dias.

Novamente por decreto, de 7 de Setembro de 1895, após as reformas administrativas do início do liberalismo, Mira voltou a ser incorporada no concelho de Cantanhede. Mas após um período de dois anos e quatro meses, voltou a recuperar a sua autonomia, acabando o concelho por ser restaurado, por decreto de 13 de Janeiro de 1898.